Uma leitura sobre proteção, produção e os efeitos sistêmicos de decisões que atingem a cadeia do agronegócio.

Na quarta-feira, 18 de junho, o Governo Federal surpreendeu o setor agropecuário ao bloquear R$ 354,6 milhões e contingenciar outros R$ 90,5 milhões do orçamento do Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). No total, R$ 445 milhões evaporaram — o equivalente a 42% de todo o orçamento aprovado para 2025.

Sem aviso. Sem diálogo. Sem planejamento.

A medida compromete um dos poucos instrumentos públicos de gestão de risco efetiva no campo. Mais do que cortar orçamento, o governo desmonta silenciosamente a infraestrutura de segurança alimentar e produtiva do país. E isso às vésperas da divulgação oficial do Plano Safra 2025/2026, previsto para o final de junho.

O impacto não é só no campo, é no PIB, na inflação e no crédito

O setor agropecuário representa quase 25% do PIB brasileiro, segundo o Centro de Estudos do Agronegócio da FGV Agro. Em 2023, as exportações do agro somaram US$ 166,55 bilhões, sendo responsáveis por quase 50% do superávit da balança comercial.

Cortar o PSR é ignorar que o seguro rural é pré-requisito para a concessão de crédito agrícola. Sem ele, bancos retraem, produtores adiam plantio, cooperativas assumem riscos excessivos e a cadeia de suprimentos se fragiliza.

O resultado é claro:

  • Menor produtividade.
  • Alta no custo do crédito.
  • Inflação de alimentos.
  • Desemprego em regiões rurais.

O agro está sendo sabotado por quem deveria protegê-lo

O discurso oficial finge responsabilidade fiscal. A prática revela miopia política e despreparo técnico.

Enquanto países da OCDE ampliam subsídios à agricultura para mitigar riscos climáticos crescentes, o Brasil faz o oposto: penaliza o produtor e terceiriza o risco à ponta mais fraca da cadeia — especialmente os pequenos e médios agricultores, que representam 77% dos estabelecimentos rurais, segundo o IBGE.

O seguro rural não é favor, é política pública estratégica. Sem ele, não há crédito com lastro. Sem crédito, não há produção em escala. Sem produção, o preço sobe e a população sofre.

Improviso fiscal não pode continuar definindo a política agrícola

O orçamento do PSR já havia sofrido sucessivos contingenciamentos nos últimos anos. Agora virou alvo explícito, justamente no momento mais delicado da década, com:

  • Queda na produtividade de soja e milho, com redução estimada em algumas regiões.
  • Alta inadimplência no crédito rural.
  • Juros ainda elevados.
  • Instabilidade climática recorde.

Cortar o seguro agora é como apagar o alarme de incêndio com a floresta já em chamas.

O setor precisa reagir: organização, mobilização e pressão estratégica

O recado do governo é cristalino: o agro precisa produzir mais com menos. O risco deve ser do produtor, não do Estado. O crédito vai se concentrar em quem já tem capital; o resto, que lute.

É hora de responder com estratégia, união e influência institucional.

1. Pressão coordenada no Congresso Nacional

  • Exigir a recomposição imediata do orçamento do PSR.
  • Transformar a política de seguros agrícolas em instrumento de Estado, não de governo.

2. Mobilização dos agentes do setor

  • Federações, cooperativas, seguradoras e resseguradoras devem atuar de forma integrada.
  • Utilizar dados de impacto econômico para mostrar que o corte no seguro reduz arrecadação futura e aumenta gastos com socorro emergencial.

3. Comunicação direta com a sociedade

  • O cidadão precisa saber que o seguro rural protege a comida no prato, o emprego no campo e o equilíbrio dos preços na cidade.

O agro é a base. Não pode mais ser tratado como adereço fiscal.

Chega de cortes silenciosos. Chega de improviso orçamentário. Chega de incerteza institucional.

O Brasil precisa de uma política agrícola previsível, técnica e robusta, à altura da importância do agro em sua economia.

Quem corta seguro em ano de crise escolhe o caos como estratégia.

Isso não é um post. É um manifesto.

Se você atua no agro, em seguros, crédito ou políticas públicas: não espere. Atue. Organize. Pressione. O futuro da produção brasileira depende de como reagimos agora.

ProCapital Insights

Conteúdo informativo. A aplicação a situações concretas depende de análise técnica, contratual e regulatória.